O arquivo gastronômico – coletânea de manuscritos culinários - de freiras residentes em João Pessoa é uma forma de preservar a memória das tradições culinárias contra a não-memorização, o esquecimento. A partir dos inventários e descrições das receitas que compõem esses manuscritos culinários realiza-se a análise dos manuscritos e revela-se os gostos, os pensamentos e o universo simbólico das freiras durante o século XX. Os manuscritos culinários são fontes inesgotáveis de memória. O objetivo deste trabalho é revelar a memória das freiras a partir de seus registros de cozinha, compreendidos como arquivos imperfeitos de acordo com os estudos de Colombo (1991) e dos conceitos de memória e esquecimento de Ricoeur (2007), Halbwachs (2004), Ferreira (2003). O registro das receitas culinárias faz parte da memória oral da cidade de João Pessoa e a leitura destes fragmentos textuais – coleções de receitas – indicam uma tradição, isto é, estes textos devem ser continuamente transmitidos. Os registros das receitas apontam a função primordial a ser observada: a tentativa de lutar contra um possível esquecimento e garantir a permanência da tradição dos segredos de cozinha. Os manuscritos culinários das freiras são assim, testemunhos não só da culinária local, mas também da memória das missionárias religiosas; logo suas receitas se configuram como signos- lembranças. É o esquecimento quem determina a memória e sua função simbólica direciona-se concomitantemente ao desaparecimento e ao retorno das lembranças.