Resumo
No universo da escritura, a voz é atualização da memória, conservada como arquivo documental, testemunhal, prova de uma existência. São os registros de linguagem que possibilitam o acesso a essas vozes. A epístola ou carta, como gênero textual híbrido, sempre foi um canal bastante difundido como elemento religioso propiciador da interação entre os indivíduos (profetas e seguidores) e os sentidos por eles compartilhados no tocante a mediação: divindade x mensagem x carta x seres humanos. Nesta perspectiva, torna-se importante destacar que no espaço sociocultural nordestino as epístolas messiânicas ganham grande destaque e figuram como folhetos de cordel. Estas cartas/folhetos buscam revelar, com suas vozes, as promessas de um Deus-Criador para com os homens-criaturas, além da disseminação dos julgamentos, na maioria das vezes, ameaçadores. Diante do exposto, percebemos a relevância deste fenômeno, bastante recorrente na sociedade mantenedora dessas vozes. Fenômeno que sugere a abertura de um espaço de observação, reflexão e análise dos arquivos mnemônico-messiânicos que compreendem o acervo de folhetos de cordel produzidos no nordeste brasileiro, recolhidos e catalogados nas décadas passadas pelo professor paraibano Átila de Almeida. Verificamos que estas epístolas atualizam uma memória milenarista, já muito difundida e que se apresenta como pensamento fortemente continuado, uma memória de profecias apocalípticas que asseveram o retorno de um Salvador, o renascimento de um povo perfeito e a vida eterna numa terra santa paradisíaca, esperança de herança dos homens fiéis a Deus. Esta é a promessa divina que se mantém viva e atualizada, dada as condições sempre precárias de subsistência que estimulam estas lembranças e promovem a produção destas epístolas/folhetos, arquivos/escrituras das vozes que ecoam de uma memória que reclama a posse de um Éden perdido.