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Discotecas Públicas, Acervos Sonoros e o Pesquisador-Ouvinte do Século XXI
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Discotecas Públicas, Acervos Sonoros e o Pesquisador-Ouvinte do Século XXI
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Resumo
O fenômeno das discotecas públicas teve seu auge entre os anos 1930 e 1940 em função, inicialmente, de esforços empreendidos pela Comissão de Peritos de Gravação Musical do Instituto de Cooperação Intelectual – organismo vinculado à Liga das Nações –, que, no final dos anos 1920, passou a sugerir que cada país estruturasse sua própria Discoteca Nacional com o objetivo de haver uma troca fonográfica entre as nações, possibilitando-se um conhecimento mútuo entre os povos por meio do som – esse elemento que havia algumas décadas se tornara objeto de captura, guarda, controle, seleção e venda ou disponibilização. Foi nesse período que uma profusa discussão sobre o destino da fonografia brasileira começou a se formar entre aqueles que tradicionalmente tinham legitimidade institucional para debater sobre temas concernentes a vozes e sons que deveriam ou poderiam ser conservados para a posteridade: músicos ligados a importantes escolas de música e conservatórios, intelectuais, escritores e outros especialistas reconhecidos. Por essa perspectiva, o disco fonográfico seria associado a mídias de difusão e armazenamento de informação mais convencionais, como os livros e as partituras; em outras palavras, a oralidade que passou a circular de maneira desornada e, de certa forma, até indesejável por intermédio dessa nova técnica moderna tinha de ser dominada e controlada por meio de uma cultura escrita bem solidificada, respaldada, ainda, por um arranjo então denominado “científico”. E sobre essas bases foram criadas, em 1935 e 1941, respectivamente, as discotecas municipais de São Paulo e do Distrito Federal (então sediado no Rio de Janeiro), ambas com a missão de disponibilizar para os ouvintes brasileiros, do presente e do futuro, música erudita, literatura fonográfica, vozes de grandes homens, folclore nacional e outros sons considerados fundamentais para a construção de documentos fidedignos, científicos, que subsidiassem a formação da arte e da história brasileiras. Passaram-se muitas décadas até que esses empreendimentos culturais fossem parcialmente esquecidos, restando dessa configuração apenas alguns traços, quase todos obscurecidos pela ilustre personalidade do criador da primeira discoteca pública brasileira: Mário de Andrade. Isso porque a discoteca paulista, ainda existente, passaria a ser objeto de investigação apenas na medida em que descortinasse a trajetória desse intelectual e do modernismo brasileiro de maneira geral. Consequentemente, o “fenômeno das discotecas” em si costuma ser ignorado, fazendo com que acervos sonoros remanescentes, em sua inteireza, sigam em suas entidades mantenedoras praticamente sem significação – como é o caso da coleção “Discoteca do Distrito Federal” do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Assim, esse trabalho tem como intuito não somente apresentar de modo sucinto os resultados alcançados por nossa pesquisa, realizada entre os anos de 2018 e 2020 no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ com financiamento do CNPq, como também explorar os percalços pelos quais uma pesquisadora-ouvinte do século XXI passou em seu processo de compreensão de um antigo, e esquecido, arquivo sonoro (confundido em sua época com um museu ou mesmo uma “biblioteca” de discos): da percepção do ofuscamento de suas práticas de arquivamento originais pelas escolhas orientadas para a música popular brasileira – realizadas não apenas pelo MIS-RJ, mas também por estudiosos e suas escutas espontâneas – até a proposta de se encararem as mídias e as tecnologias que as subsidiam como atores fundamentais para a apreensão de órgãos culturais como a antiga Discoteca Pública do Distrito Federal.
Palavra-Chave
Arquivo > Arquivo sonoro | Disco fonográfico | Discoteca pública | Políticas > Políticas culturais > Política cultural | Tecnologia
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Organizador(es)
Editora
Natureza
ISSN ou ISBN
978-65-991726-4-9
ISBN
978-65-991726-4-9
Sessão
Gêneros não textuais
Páginas
1-14